História da Viola

As violas são instrumentos que têm a cara do Brasil. Ou melhor, “as caras” do Brasil. No meu caso aqui, "cara de mineiro".

Seguindo o rastro da viola em Minas, pra saber de onde ela veio, cheguei até o Ze Côco. Nascido José Barbosa dos Santos no Riachão, distrito de Nova Brasilia, município vizinho de São Francisco - MG, no ano de 1912. Fabricou a partir de 1930. Estabeleceu-se em Montes Claros em 1977.

Zé Côco e Vergilio no "Violeiros do Brasil", Sesc SP, 1996

Sujeito muito simples e cheio da sabedoria. Sabedoria daquelas da prática que só o tempo dá. Ele contava que o próprio pai não queria que ele aprendesse o ofício de fabricar e nem a arte de tocar, mas insistiu e acabou fazendo bem os dois.

Só tive o prazer de conhece-lo poucos anos antes de sua morte. As violas de sua fabricação ainda estão por aí e o seu som registrado em muitos discos, tendo ele trabalhado até 1998.

Zé Côco do Riachão estava lá em Montes Claros e outro foco das violas esteve bem mais perto de mim, ali em Conselheiro Lafaiete, cidade que antigamente se chamava “Queluz de Minas”. Lá duas famílias: os Meirelles e os Salgado. Firmaram nome fabricando violas que eram comercializadas principalmente nas festas do Jubileu do “Senhor de Bom Jesus de Congonhas”, que acontecia anualmente.

Oficina dos Meirelles - Queluz de Minas

Tenho a honra de ter sido presenteado pela Sra. Gracia Meirelles, bisneta de Benjamim Candido Meirelles, em setembro de 2006. Uma cópia de uma das poucas fotos existentes da oficina do velho Benjamim com a seguinte dedicatória:

“Dedilhando ou confeccionando, mesmo que por lapso de tempo não deram a continuidade, tanto pelos Meirelles como pelos Salgados, a tradição das maravilhosas “Violas de Queluz” seguirá seu rumo pelas mãos de quem tão bem já as faz.”

Tive oportunidade de restaurar muitas dessas violas de períodos diferentes e em péssimo estado de conservação. Apenas umas poucas em condições de uso.

Dessas famílias ainda vivem alguns descendentes, mas nenhum herdou a arte da fabricação, sendo que as últimas Violas de Queluz foram provavelmente feitas na década de 1950, segundo o colecionador Cláudio Alexandrino.

Sabendo que as violas chegaram até nós através dos portugueses, provavelmente desde as primeiras viagens daqueles colonizadores, busquei encontrar a similaridade entre os nossos representantes mais antigos e os registros das violas feitas lá em Portugal. No meu entender, exceto pela cintura muito acentuada, de acordo com as descrições e fotos das violas registradas no livro “Instrumentos Musicais” de Luis L. Henrique - Fundação Calouste Gulbenkian - Lisboa 2006 - as violas feitas por Zé Côco e aquelas feitas pelos Meirelles e Salgado têm parentesco próximo com a “Viola Campaniça” de Portugal.

Lá, as violas se conservaram sem muitas modificações ao longo dos anos, tendo características regionais bem definidas. E notícias recentes, fruto do intercâmbio entre nossos músicos e os de lá, dão conta que as várias formas de manifestação que usam a viola estão em vias de extinção. Ao contrário, aqui no Brasil a viola vem cada vez mais encontrando espaço.

Num país tão grande como o nosso nada mais normal que a viola se regionalizasse, adquirindo várias “caras”. Viola Nordestina, Viola Pantaneira, Viola Paulista, Viola Mineira etc.

Desde que ingressei na arte da fabricação dos instrumentos de cordas, a viola me chamou a atenção pelo potencial que ali estava, relegado a um segundo plano quase pejorativo, tratada como “viola caipira”.

Desde 1986 faço violas. Naquela época as fábricas de São Paulo - maior pólo industrial brasileiro - faziam violas principalmente para atender à demanda de um público de pouco poder aquisitivo e não investiam na qualidade dos instrumentos. Existiam em todo o Brasil apenas alguns poucos luthiers que tinham condições de aperfeiçoar o instrumento.

Assim, assumi a bandeira de fazer violas para uma nova geração de violeiros. Incorporando todo tipo de avanço no que diz respeito ao desenho (ergonomia e estética), afinação e executabilidade, além de experiências com a utilização de materiais modernos e tradicionais.

Vergilio Lima