Biografia

"Fui me tornando Luthier aos poucos."

Nasci em Sabará, Minas Gerais em 1958. Minha mãe, Vênica dos Santos Lima, professora primária que aprendeu a tocar piano na juventude e até hoje aos 83 anos aprecia o instrumento. Meu pai, Arthur Lima Junior, já falecido, era economista por profissão, pintor e historiador por hobby , estudou violino ainda jovem e tambem adorava os pássaros e seus cantos. Em sua companhia aprendi a conhecer o canto de inúmeros passáros e tambem aprendí a fazer gaiolas, daquelas de muitas reguinhas de madeira, cortadas e furadas manualmente sem máquinas ou equipamentos. Era um grande prazer ouvir cantar aquele "passaro preto" capturado filhote e criado numa gaiola feita em casa. Os passeios pelas matas e visitas nas fazendas dos amigos me familiarizaram com arvores e madeiras.

Aos dez anos me apaixonei por aeromodelos que se tornaram uma rotina de montar e voar. Assim desenvolvi habilidade fina com a madeira. Agora os passaros de madeira voavam livres, mas o canto não era dos mais belos, o assovio das15.000 rpm dos pequenos motores.

Aos quatorze anos fui morar com meu Irmão mais velho, Venicio Lima, em Urbana, Illinois, USA. Onde ele fazia seu mestrado na Universidade local. Estudei lá o início do segundo grau e fui aconselhado a optar por matérias que não exigissem muito do inglês que eu não dominava. Assim acabei estudadando, física, matemática, quimica, e marcenaria alem das outras matérias obrigatórias. Assim fui ajuntando uma série de números que sem saber viriam a ser muito úteis.

Voltando ao Brasil fui cursar o terceiro ano do segundo grau, me preparando para o vestibular. Naquela época, sem tanta televisão, sem internet e nenhum shopping, era de algum valor o garoto que sabia tocar um instrumento. Ganhei de minha irmã mais velha, Veronica Lima, um violão Giannini. Comecei a frequentar aulas dadas pelo Maestro Nelson Piló em Belo Horizonte. E logo observei que dentre meus colegas, quase todos tinham um palitinho calçando a pestana, um pedaço de fita durex fechando uma rachadura, ou uma tarracha empenada em seu violão. De imediato me dispus a fazer estas pequenas correções nos instrumentos. A habilidade tinha algum treino nas gaiolas e aeromodelos além do curso de marcenaria nos USA. O gosto pela música vinha de casa, do piano e dos pássaros.

Os vestibulares me levaram da Engenharia à Biologia. Dar satisfação à pressão de ter que fazer um curso superior. Pois enquanto estudava, as mãos coçavam para fazer algo com elas. Nunca houve intervalo para o aeromodelismo ou para a música.

Conhecí então dois professores de São Paulo que vieram lecionar violão na Fundação de educação artística: Noé Lourenço e Antonio Salles. Tive aulas com este último. Ambos tinham violões artesanais feitos por Shiguemitsu Suguiyama.

Estávamos então em 1977 quando no Brasil violões artesanais de qualidade eram importados e o pioneiro desta atividade era o saudoso Luthier Joaquim Dornellas (SP). Suguiyama havia chegado ao Brasil a pouco tempo e trabalhava como empregado na Giannini. Sua produção própria era muito pequena. Poucos o conheciam. Observador que eu era da sonoridade dos instrumentos e seus detalhes, não pude resistir a curiosidade de conhecer pessoalmente o fabricante daquela obra de arte. Fui à São Paulo e levei um cavaquinho que eu estava fazendo para mostrar ao Suguiyama e pedí à ele que me ensinasse a calcular a escala. Ele deu uma boa risada e me disse num portugues cheio de sotaque: " Tem Luthier famoso mundo a fora que não sabe fazer um violão afinado, levei dez anos para descobrir como se calcula corretamente uma escala. Se você for bom vai descobrir tambem." Deixei com ele meu telefone e a intenção de me tornar seu aprendiz.

Voltei pra casa feliz por ter visto seu trabalho de perto, conhecido sua oficina na garagem, intrigado com o cálculo da escala que parecia ser muito complicado, e quase certo de que ele jamais me chamaria para ser seu aprendiz. Busquei nas bibliotecas, nos livros de física e música a resposta para minhas perguntas sobre a construção da escala. Continuei minha busca como auto-didata, paralelamente fazendo reparos em instrumentos de cordas, fabricando acessórios para instrumentos de orquestra . Neste periodo tive a satisfação de conhecer o Luthier Sr. Luciano Rolla (RJ) com quem aprendi muito sobre os instrumentos de orquestra. Ele foi um dos maiores incentivadores do meu trabalho e comprador das peças que eu produzia .

Não levei um ano para chegar a uma conclusão sobre a escala e mais ou menos no mesmo periodo recebí o esperado telefonema. " Você ainda está interessado em ser meu aprendiz?" (Suguiyama)

Tranquei minha matricula na UFMG e fui morar em casa de amigos em SP. Durante meses de 1978 e 79 tive o privilégio de ser aprendiz de um autentico luthier minucioso. Conhecedor de técnicas apuradas adquiridas como aprendiz do renomado Masaru Kono em tóquio e que desenvolve sem trégua até hoje em busca de um som perfeito na sua concepção.

Tenho a honra de ter sido citado pelo meu mestre da seguinte forma: "Tentei formar alunos oito vezes, acertei so uma com Vergilio Artur de Lima, que abriu sua própria oficina de lutheria em Sabará- Minas, os outros não captaram a disciplina da virtuosa paciencia japonesa."(Folha de São Paulo 22-06-90)

Abreviei meu periodo de aprendizado que poderia ter se extendido por muito mais para voltar à terra natal e me casar com a namorada de infancia, Jussara Miranda Queiroz, neta de marceneiro , mãe de meus cinco filhos, Ana, Francisco, Juliana, Mariana e Adriana.

De 1980 para cá venho produzindo em média 20/25 instrumentos por ano entre violões, violas, bandolins e cavaquinhos. Na oficina conto com a ajuda de Ana (22) que se especializou em machetaria e Francisco (20) que se especializou em Baixos acústicos. A demanda é variada e sofre influencia de modismos. Comecei a trabalhar com a Viola Caipira inspirado por Roberto Correa que conheci em 1986.

Já ministrei cursos e participei como convidado em vários encontros musicais. Dignos de nota o "Seminário de Musica instrumental de Ouro Preto" em 1986 organizado por Toninho Horta; Curso de formação de Luthiers-(1997) atendendo à convite do então Prefeito de Sabará, Dr. Diógenes Gonçalves Fantini, Workshop sobre "afinações/cordas de viola caipira" Durante Encontro de violeiros no Sesc SP em 1998.

Venho organizando cursos de iniciação à arte da fabricação de instrumentos de cordas. Onde o aprendiz percore o caminho da construção, da montagem até o acabamento final e ao término do curso, o aprendiz recebe o instrumento que fez. Outros cursos de curta duração sobre temas e instrumentos específicos sâo organizados eventualmente.

Espero ser premiado com a longevidade que me permita trazer o som contido em tantas e belas madeiras que esperam caladas o momento de encantar aos apreciadores da boa música e dos trabalhos manuais finos.

Vergilio Artur de Lima / Sabará 2003